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21 de nov. de 2009

Escrever novo livro foi exercício de liberdade, diz Saramago

19-10-2009 09:47:51 via AgenciaLusa



Penafiel, Porto, 19 out (Lusa) - José Saramago afirmou, na noite do último domingo, em Penafiel, que escrever o seu novo livro, "Caim", constituiu, para si, "um exercício de liberdade".

O escritor falava durante a apresentação mundial do livro, que aconteceu no Museu Municipal de Penafiel, diante de uma plateia de cerca de 800 pessoas, integrada na programação do festival literário ESCRITARIA 2009, que homenageia o autor de "Memorial do Convento".

"Não é que este livro seja mal comportado, mas é, sem dúvida uma insurreição, um apelo a que todos se animem a procurar ver o que está do outro lado das coisas", disse.

O Prêmio Nobel da Literatura de 1998, com 86 anos, falou por cerca de 1h15, e referia-se ao tema principal do livro, em que regressa à questão religiosa, contando, em tom irônico, a história de Caim.

Segundo o Velho Testamento, Caim teria sido o filho primogênito de Adão e Eva, que matou Abel, seu irmão mais novo, num acesso de ciúmes, após verificar que Deus mostrara preferência por este.

"Nada disto existiu, está claro, são mitos inventados pelos homens, tal como Deus é uma criação dos homens. Eu limito-me a levantar as pedras e a mostrar esta realidade escondida atrás delas", afirmou o escritor.

O lançamento do livro foi o último ato da presença de Saramago em Penafiel, onde está desde a manhã de sexta-feira, para participar na segunda edição do ESCRITARIA, que começou na última quinta-feira.

O festival pretende "celebrar a carreira dos grandes autores portugueses de forma intensa e abrangente, criando no contexto urbano  um conjunto de ações que sejam capazes de surpreender os penafidelenses e todos aqueles que nos visitem", disse à Lusa Alberto Santos, prefeito de Penafiel, que organiza o evento, em parceria com as edições Cão Menor.

Alberto Santos considera o ESCRITARIA "um investimento reprodutivo, altamente compensador, porque cria uma onda de interesse em Penafiel, impõe a cidade como um espaço dos afetos, do patrimônio, da cultura e das artes. Isto é um fator de coesão, identidade e auto-estima para a população".

Em declarações à Lusa, no final da sessão do evento, considerou que "todos os objetivos foram atingidos".

A segunda edição do evento - com um orçamento de 50 mil euros - incluiu sessões de teatro, com a companhia Éter, de Sintra, a apresentar a peça "Memorial do Convento", baseada na obra homônima de Saramago, e de cinema, vários filmes inspirados na obra do escritor, entre eles "Ensaio dobre a cegueira", do diretor brasileiro Fernando Meirelles.

"O festival gerou uma imensa onda de interesse a nível nacional e todas as suas manifestações tiveram grande participação, com sessões cheias, tanto as de teatro, cujo número de sessões teve que ser aumentado para acolher todos os interessados, como as de cinema e também os colóquios que tiveram assistências de 400 a 500 pessoas", afirmou o prefeito.

Toda a baixa da cidade foi decorada em homenagem à obra de Saramago, tendo sido palco de teatro de rua e de várias intervenções plásticas inspiradas nas criações de José Saramago.

"Sabemos que para o ano vamos ter que trabalhar muito para manter o nível que esta edição atingiu, mercê da presença do José Saramago. Tudo faremos para que isso aconteça, ou, pelo menos, para chegar o mais perto possível", afirmou Alberto Santos.

Depois ler a Folha



20 de out. de 2009

Alma de ribeirinho


Os que nasceram nas grandes metrópoles, com seus brinquedos eletrônicos e suas esquinas concretas, defenderão as ruas asfaltadas, o clube do fim de semana e a solidão do computador. Os que nascem na beira de um rio, porém, queremos fazer ver as vantagens e os privilégios da infância livre, entre águas, peixes e canoas.

Até hoje, e lá se vão mais de trinta anos, até hoje, eu ainda sonho com o rio Mearim do fundo de meu quintal. Vez por outra, acordo com a doce sensação de um banho quente em suas águas. E quantas vezes sonhei com a casa alagada pela enchente,pescando piaba, sobre um jirau de tábuas! O menino ainda não sabia reconhecer a responsabilidade dos adultos e o sofrimento dos alagados mais pobres. Só pensava em banhar no meio da rua e pescar... Outro dia, eu sonhei um sonho surrealista (conseqüência, decerto, de alguma refeição mal digerida). Parecia que o rio se transformava numa larga avenida, com carros anfíbios e bicicletas que subiam e desciam nas águas...

Eu nasci na beira do rio, na casa sete, cuja rua leva o nome de um antepassado. Aprendi a nadar com meu avô, Nestor Fernandes, que tinha um método pedagógico um tanto excêntrico: jogava-nos no meio do rio para que perdêssemos o medo da água. É claro que era uma forma dele se divertir também, mas eu retive a lição realística: ou aprende a nadar ou morre afogado!

A primeira namorada eu conheci banhando de canoa nas manhãs de domingo. Folgávamos nas canoas, os rapazes, com a maré cheia e batida de maracujá, enquanto as meninas, de biquíni, iam em outras canoas tomando banho de sol. Foi um amor idílico e sincero. Provocou minha inclinação romântica e me fez ler toda a obra de José de Alencar...

A primeira transa, também, alguns anos adiante, foi com a inspiração do rio. Mas, é claro, não era tão bom como as boas pescarias de surubim! Ah! Nada supera um peixão na linha, brigando desde o meio do rio até a beira! A educação pela paciência e o orgasmo da fisgada: perfeito!

Além disso, as desilusões, os desencantos, as melancolias da juventude eram testemunhadas pelas plácidas águas do entardecer. O dourado nas pequenas ondas; o vento brevíssimo; os pássaros buscando em algaravia o agasalho das grandes árvores; o amarelo queimado do sol no horizonte se pondo entre as copas das mangueiras e a curva do rio. Eu nunca vi um pôr-do-sol tão bonito quanto o de Arari, capaz de reunir para mim, a beleza natural e a simpatia da saudade.

Quando ficávamos bêbados, íamos curar a ressaca nas águas do rio. Uma vez, com os hormônios malogrados, fomos terminar a madrugada banhando pelados na “barragem”. O delegado não soube, nem o Pe. Brandt. Era um outro tempo. Hoje, as ressacas são outras e, talvez, estejamos tentando curá-las em outras águas, nas águas turvas da linguagem.



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18 de out. de 2009

Homenagem a Benedito Nunes


 via Revista Brasileiros edição 25

Em um de seus encontros com Benedito José Viana da Costa Nunes, em Belém do Pará, Clarice Lispector lhe disse: "Você não é um crítico, mas algo diferente, que não sei o que é". A escritora tinha razão ao demonstrar a dificuldade em rotular a obra do paraense que, nas palavras do professor aposentado da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas de São Paulo, Antônio Cândido, representa um tipo muito raro de intelectual, capaz de ser "um grande crítico literário e, ao mesmo tempo, um filósofo".

Nascido em 21 de novembro de 1929, o professor, filósofo, crítico e ensaísta Benedito Nunes define seu trabalho como "um tipo mestiço das duas espécies, a filosofia e a literatura". "Tento, dessa forma, fazer a ligação entre os dois campos, porém sem nivelar ou diminuir um ou outro, mas mostrar as suas correlações, afinidades e oposições", diz Nunes, que está bem perto de comemorar 80 anos de vida, mas de preferência em silêncio, no lugar em que mais gosta de ficar, sua biblioteca, sentindo o perfume dos livros. "Não gosto de parabéns, acho horrível, cafona."


Considerado um dos maiores pensadores do Brasil, Nunes se classifica como "um autodidata e eterno aprendiz, sempre em busca de novos olhares". Durante sua da carreira, especializou-se em analisar obras de grandes escritores, como Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa, Fernando Pessoa, Jean-Paul Sartre e Martin Heidegger. Por seu trabalho intelectual, recebeu o Prêmio Jabuti de Literatura em 1987 (na categoria Estudos Literários, com Passagem para o Poético - Filosofia e Poesia Heidegger), pela Câmara Brasileira do Livro, e o título de Professor Emérito da Universidade do Pará, em 1998.


Apesar de ter sua obra reconhecida e elogiada por muitos, Nunes sempre foi avesso a grandes badalações, preferindo ficar recluso em sua terra natal, o que talvez explique o fato de seu nome não ser tão conhecido nacionalmente. "Belém é meu canto. Sou um pouco animal, gosto da minha toca. Belém é minha concha existencial, sempre foi." A maneira que o paraense escolheu para viver o diferencia da maioria dos intelectuais. "O mais notável é que Benedito Nunes pertence a um tipo muito característico de intelectual brasileiro: o que não renuncia à sua província. Ele é um pioneiro ao acreditar que os núcleos de conhecimento devem ser desenvolvidos em vários pontos do Brasil, em várias universidades, em vez de se concentrar apenas nas faculdades famosas", afirma o crítico Antonio Cândido.


De família de intelectuais, Nunes nasceu um mês depois da morte de seu pai, o bancário Benedito da Costa Nunes. O filósofo aprendeu o abecedário no Colégio Sagrado Coração de Jesus, que funcionava dentro da sua própria casa, onde tinha aulas com a professora Theodora da Cruz Vianna, a Dodô, uma de suas cinco tias. "Era um 'coleguinha' muito bem frequentado, pessoas ilustres passaram por lá", relembra.


22 de set. de 2009

Cesar quer saber quando morro

Cesar, há muito tempo, espera meu "acidente" (bala, moto ou vício). Como se resolverá isso?  Quando esta noite findará? Rosh Hashaná.
Todo dia é ano novo. O sol, César, séculos e séculos, silenciosamente, aquecendo nosso abandono. Que inventamos? A vergonha, a violência, a inutilildade das mulheres, as sociedades secretas dos homens. Poderíamos ter inventado a alegria, a equidade, a justiça, a benevolência, a verdade, a fraternidade, o elogio da maternidade.
Inventamos a nanotecnologia e esquecemos as lombrigas dos ribeirinhos. Criamos ribeirinhos para nossa alimentação. Rapazes da Febem para servir aos deputados e velhos de São Paulo...
Criamos Fausto e precisamos beijar a cruz para ser aceito na sociedade dos homens...
Crítica da cultura.
Quem está feliz não critica, canta.
Gorjeia no twitter.
A pureza de Cristo é mais revolucionária que todos os trotskista do PSOL. 
O cristo das igrejas é um cristo vestido, vendido, falso, ensanguentado - apenas um mecanismo de dominação ideológica.
A verdadeira luta não é mais enfrentar os leões nas arenas de Roma. Agora, a luta é enfrentar os processos de dominação que embrutecem e estagnam.
A linha Spartacus é se fazer odiado pela classe dirigente.
A linha Cristo é se fazer amado pela classe dirigida.
Fazemos nossa escolha todos os dias.







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31 de jul. de 2009

sem título

Acaso sabes porque vivo morto de amor?
A flor falou: Ei! Bom dia! A ave ouvia.
Chegou a primavera, respira essa dulce anjo.
Acaso sabes do que me embriago?
A dulce anjo de minha infância
volta agora velha avó!
Acaso sabes que me reviro em ave
e miro a lira e minhas asas batem
como uma andorinha?
AR

7 de jun. de 2009

Responsabilidade de Falar

"Minha mulher me chama de Grouxo – aquele personagem dos X-Men que tem a língua enorme; outras vezes diz que, quando eu morrer, meu corpo vai num caixão e minha língua num caminhão (imaginem o que ela tem ouvido por aqui...). Para quem gosta de escrever, isso é um elogio. No entanto, eu sei que a verborragia é uma doença e não uma virtude. A doença de Grouxo é falar sem responsabilidade. Para falar uma vez é preciso calar mil. Ou, como dizia meu avô, o falar é de prata e o calar é de ouro.

O povo espírita diz que reencarnamos para cumprir um ciclo de limpeza cármica. (centrífuga divina, não ria...). Você compreende isso? Nós nos sujamos na infância da alma e Deus (seja lá o que isso for), eternamente misericordioso, permite que voltemos à fonte para nos limparmos. Essa teoria é análoga à da Colônia Penal, pela qual estaríamos aqui para cumprir uma pena, como intuiu o faminto Kafka. Eu não estou escrevendo sob inspiração de nenhum espírito, salvo engano, por isso, meu raciocínio não é suficiente para penetrar nas sutilezas dessas teorias. Entendo apenas que na outra encarnação eu nasceria mudo.

Sim, o mal é o que sai da boca do homem. Deve-se acrescentar: porque o coração está cheio. A língua é apenas um instrumento do coração. Ela é um escravo obediente. Abusar do escravo pode aleijá-lo. Muito bem, mas a raiz do problema está mesmo no coração, a fonte conspurcada donde brota a água venenosa do rancor, o fel da revolta, e todas as outras maldades. Horror! Eu não quero voltar mudo. Não quero meu coração impuro com as ilusões do mundo. Quero limpar minhas mãos e aprender a falar com a brandura de quem conhece o mal, mas não compactua com ele, nem o dissemina.

Não disseminar a revolta, mesmo sensibilizado com os que sofrem sem lar, sem afeto, sem remédio, sem amigo; mesmo compreendendo as vergonhas do homem e as prepotências de classe; mesmo compreendendo as mentiras que se divulgam para ocultar a corrupção; mesmo compreendendo que o mundo é dos vitoriosos. Vitoriosos, dos quais Sarney nos deu uma definição perfeita ao defender Renan Calheiros no Senado: "ele não chegou até aqui porque é santo"...

Como falar, despertando a consciência (crítica, antes de tudo), sem despertar junto a serpente do mal adormecida no coração do homem? A resposta vem do Cristo, cuja psicologia profundíssima ainda nos assombra:

- Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que limpais por fora o copo e o prato e que estais por dentro cheio de rapina e impurezas! Fariseus cegos! Limpai primeiro o interior do copo e do prato, a fim de que também o exterior fique limpo.

Sim. Limpemos nosso coração para que nossa boca fale palavras de luz. Limpemos o coração antes de demonstrar as sombras do mundo, sob o risco de sermos devorados por elas.

Meu esforço para compreender as palavras do Cristo talvez me salve de voltar mudo."

19 de mai. de 2009

Vaso trincado




 

"Há uma história, lida não sei onde, que diz que um rei muito poderoso mandou comprar vasos novos. O encarregado, muito zeloso, chegou à loja do fabricante de vasos e começou a bater suavemente nos vasos expostos. Perguntado por que assim o fazia, respondeu:

− O rei exige apenas os vasos perfeitos, se houver algum vaso trincado, este deve ser eliminado.

Essa história é muito repetida nos meios religiosos com a interpretação da exigência de Deus por espíritos perfeitos. Serve para ilustrar as regras moralizadoras de cada credo. Uma história tem um poder de persuasão maior que uma sentença legal.

Há outro aspecto da história moral, que não interessa muito à moral religiosa, mas que me dói perguntar:

− E como ficam os vasos trincados? Devem ser relegados ao fogo eterno?

Somos humanos, somos falíveis, somos imperfeitos. Dificilmente, até onde os olhos alcançam, veremos um anjo entre nós. O rei não encontrará seu vaso perfeito preferido.

A idéia que podemos alcançar a perfeição é tão absurda quanto o desejo de tornar perfeito um vaso trincado.

Somos condenados à imperfeição, ou se preferires comigo, condenados à humanidade.  "

7 de mai. de 2009

Xian Xu e os Mongóis

Em 658, o pequeno reino de Lu Xian Xu, o Sábio, ao norte do Rio da Fertilidade, foi invadido pelos mongóis. Os mongóis eram terríveis. Depois de reduzirem a papa os campos de arroz do povo de Xian Xu, queimaram suas vilas, uma a uma, e chegaram por fim à cidade real. A bela Tsuido Hen consistia apenas no palácio do monarca cercado de ruas labirínticas, e os mongóis entraram pisoteando com seus cavalos peludos o labirinto, que era de papel e bambu, e foram direto ao palácio. Puseram-se então a destruí-lo, como haviam feito com colheita, crianças, adultos, cidades, esperança.


Enquanto seu palácio ardia, Xian Xu, o Sábio, entrou nos aposentos de suas onze esposas e, anunciando a derrota, ordenou que o seguissem. Pegariam a passagem secreta – a última esperança. Arrastando aquela cauda de mulheres assustadas, Xian Xu venceu o corredor com passos apressados e abriu de par em par as portas do salão abobadado da Grande Biblioteca, um aposento de vitrais altos e piso de mármore onde se assentava o xadrez das prateleiras repletas de arcanos teológicos e criacionistas, poéticos e terapêuticos, morais, filosóficos, míticos e cômicos.


O Sábio avistou então Suri Kuoda, o jovem bibliotecário, espanando poeira de uns volumes grossos. Sorriu. A esperança tinha mesmo muitas vidas.


– Você vai na frente – disse.


Salvando Suri Kuoda, Xian Xu dava-se conta de repente, salvava tudo. A memória prodigiosa do bibliotecário levaria consigo a Grande Biblioteca, ou pelo menos a melhor parte dela: os poemas eróticos de Tsi Eh, as anônimas Revelações Azuis, toda a hermenêutica de Lishmura. Os mongóis trovejavam perto dali. Uma pedra atingiu um vitral, abriu-lhe um dente. Tendo Suri Kuoda a seu lado e as onze esposas em seu encalço – era um estranho séquito o que fugia pela biblioteca, rumo ao alçapão atrás da última prateleira, de onde dariam nos subterrâneos inexpugnáveis – Lu Xian Xu ia ferido, triste como um viúvo, mas sereno e orgulhoso. A inestimável cultura de seu povo teria um futuro.


Estavam a poucos passos do alçapão quando ouviu-se um grito bestial, e um homem pendurado numa corda atravessou um dos vitrais, espatifando-o. Só então o futuro ficou claro para Xian Xu, e não era o que ele tinha imaginado. O mongol, careca como um ovo, depois de cair de pé no parapeito, tirou arco e flecha e zum, tuc, de repente tinha um pedaço de pau espetado no coração de Suri Kuoda.


Lu Xian Xu viu a ponta da flecha saindo das costas do bibliotecário e compreendeu. Mandando suas esposas imitá-lo, sentou-se no meio do corredor de livros, no mármore frio, de pernas cruzadas, e esperou a morte.



copiado sem autorização de Sergio Rodrigues

6 de mai. de 2009

A conversão

Ele estava se convertendo a alguma religião evangélica. Não havia no grupo a empolgação de ter encontrado a ovelha há muito perdida. Havia uma seriedade calculada e talvez um certo mal-estar pelo peso daquele resgate. Era apenas uma obrigação para o pastor – uma difícil obrigação, a que ele se entregava preocupado.


Deram-se as mãos em círculo. Rezaram o Pai-Nosso. Alguém fez uma prece, ao que foi seguindo por outro e mais outro até chegar ao convertido. Este cabisbaixo, meditabundo, derrotado, balbuciou algumas palavras do fundo do coração: "que meus filhos possam enfrentar com segurança um mundo de gente má e envergonhada".


Sim, era aquilo que o pastor temia. O mal-estar do grupo aumentou. Desfez-se o círculo. Cada um falou palavras consoladoras, com mais ou menos cinismo.


Nos meses seguintes, o convertido sentiu o peso da rejeição. Tratavam-no com secura e indiferença como se fosse um estranho no ninho. No fundo do coração, porém, estava puro na sua verdade. Os outros nadavam sobre o nada. Faziam grande esforço para compreender o Cristo e sua história de bondade e renúncia. Permaneciam no distanciamento dos rituais e das práticas convencionais, não queriam perder a segurança do mundo conhecido.


Ele, ao menos, havia alcançado um pouco da sabedoria de aceitar as imperfeições alheias. Aprendeu a identificar a dor de cada um. Olhava o pastor e via um homem com grande desejo de poder, condenado a, todo domingo, dizer palavras consoladoras a uma multidão que desprezava. Via as senhoras gordas querendo ser amadas e amadas. Via os homens taciturnos, cada um com seu mistério.


O domingo era bom, apesar de tudo: era o dia em que a rejeição ensinava humildade.

7 de mar. de 2009

Eco, eco

Eu vi um louco na rua Grande. Ele era sujo e maltrapilho. Atendia um celular de brinquedo e orgulhava-se que o vissem telefonar. 
Achei a imagem muito peculiar dos tempos modernos: um sujeito destruído e a tecnologia do invisível.
Chamo de tecnologia do invisível a esse monte de parafernália que utiliza alguma forma de comunicação sem ligação física. O celular é um exemplo. A voz é codificada num aparelho e transmitida por ondas através do ar até um outro.
Só que ninguém se maravilha que o invisível seja material.
Eu acho incrível que ondas eletromagnéticas possam (existir?) transmitir a voz e a imagem de coisas reais. Talvez eu seja tão filósofo quanto as crianças que se encantam com tudo. 
Mas o louco da rua Grande lembrou-me a mim mesmo, assim redundante, conversando comigo mesmo, ouvindo meu próprio eco.
Lembrou  que eu também sou louco, que articulo palavras, mas estou sozinho.
E que sozinho não é um bom lugar.
Não é digno do Pai.
O louco, meu irmão, precisa que o vejam falar ao celular; precisa que o entendam são, precisa se completar no amor do outro.
Eu não reclamo nem mesmo a companhia da vaidade - essa doença tão saudável... 


Escrevo para o nada, como um mendigo de luxo.






5 de mar. de 2009

Meu boné de turista




Reclamam do meu boné - o esconderijo de minha timidez - com o qual me protejo da chuva, ou do sol, quando o há.
Fui à UniCeuma ontem e, logo na entrada, deparei com um busto  de Santos Dumont.
Com seu chapéu de aviador - o esconderijo de sua timidez ou o seu rabo de pavão?
De qualquer forma, foi bom descobrir que a primeira Instituição de Ensino Superior privada do Maranhão não se envergonha de cultuar um suicida.
Foi bom descobrir que o Ceuma não abriga apenas os bem dotados filhos da elite maranhense ou as suas irmãs de porcelanas. Abriga também os que se aventuraram por caminhos tenebrosos, embora com o espírito de superação...
Deve ter sido por isso que me senti em casa: gosto do gosto por chapéus do Santos.
Além do mais, a idéia de ter um busto à entrada de uma Universidade, mesmo depois de morto, não soa desagradável ao meu rabo de pavão.